Poucas franquias conseguem chegar aos 30 anos mantendo sua relevância. Seria fácil para Toy Story 5 apostar apenas na nostalgia e viver do carinho que o público sente por Woody, Buzz e companhia. Felizmente, o novo filme dirigido por Andrew Stanton faz muito mais do que isso. A nostalgia continua presente, mas agora ela ganha uma camada diferente: são os próprios brinquedos que sentem saudade do passado.

A grande protagonista da vez é Jessie (Annie Potts), que assume de vez o posto de xerife e líder dos brinquedos de Bonnie (Scarlett Spears). Sua principal missão é garantir a felicidade da garota, mas essa jornada também revela seus próprios medos. Jessie não quer ver Bonnie se afastar dos brinquedos e, principalmente, não deseja experimentar novamente a sensação de ser esquecida.

Era apenas uma questão de tempo até que a franquia abordasse o impacto das telas na infância moderna. O mais interessante é que o roteiro evita a solução mais óbvia. Em vez de transformar a tecnologia em uma vilã absoluta, Toy Story 5 apresenta Lilypad (Greta Lee), um tablet inteligente que estreia na franquia como antagonista, mas que possui motivações surpreendentemente semelhantes às de Jessie. Ambas querem o melhor para Bonnie. Ambas desejam que ela seja feliz e faça novas amizades. Essa dualidade dá ao filme uma maturidade que poucas animações conseguem alcançar.

Durante sua aventura, Jessie encontra Amigo Rolinho (Conan O’Brian), Clica (Shelby Rabara) e Atlas (Craig Robinson, três brinquedos que representam uma brilhante transição entre o mundo analógico e o digital. Equipados com displays de LED e tecnologias consideradas ultrapassadas para os padrões atuais, eles são uma das ideias mais criativas do longa. Não servem apenas como alívio cômico, mas como símbolos de uma geração de brinquedos que tenta encontrar seu espaço em um mundo em constante transformação. O mais interessante é que os três não possuem grandes ambições próprias: sua missão é ajudar Jessie a cumprir seu objetivo e retornar para casa, tornando-se companheiros fundamentais em sua jornada.

Outro destaque fica para a patrulha de Buzz Lightyears, um grupo de bonecos que ficou perdido após um acidente envolvendo um contêiner encalhado em uma ilha. Suas participações são pontuais, engraçadas e extremamente eficientes. O filme cria uma expectativa constante para o momento em que eles finalmente encontrarão a equipe principal e quando isso acontece, entrega algumas das cenas mais divertidas de toda a produção. É impossível não esperar por esse encontro durante todo o filme, e a recompensa vale a pena.

Claro que não existiria Toy Story sem Woody (Tom Hanks) e Buzz (Tim Allen). Buzz Lightyear retorna com um papel importante na trama, demonstrando apoio total a Jessie, personagem por quem declara seu amor e com quem sonha construir um futuro. Já Woody surge em uma nova fase de sua vida, atuando como um verdadeiro ranger forasteiro que ajuda brinquedos abandonados a encontrarem novos lares. Seu retorno resgata toda a essência do clássico cowboy do Velho Oeste e rende ótimos momentos ao lado de Buzz. A amizade entre os dois continua sendo um dos pilares emocionais da franquia, equilibrando cumplicidade, humor e as tradicionais discussões que os fãs tanto gostam de acompanhar.

Visualmente, o filme representa mais um salto impressionante da Pixar. Andrew Stanton demonstra novamente um domínio admirável da linguagem visual ao criar cenas de enorme impacto emocional. A animação já impressiona por si só, mas existe um detalhe que torna tudo ainda mais especial: sempre que as crianças estão brincando, o estilo visual muda completamente. O público passa a enxergar os brinquedos através da imaginação infantil, com novos traços, novas cores e uma estética que transforma momentos comuns em verdadeiras aventuras épicas. É uma escolha artística encantadora que adiciona uma camada extra de magia à experiência e reforça o poder da imaginação, algo que sempre esteve no DNA da franquia.

O terceiro ato também merece elogios por fugir do caminho previsível. Em vez de insistir no conflito entre brinquedos e tecnologia, o roteiro abraça uma história de redenção. Aos poucos percebemos que Lilypad nunca foi uma inimiga de verdade. Ela apenas buscava o mesmo objetivo que Jessie. Quando ambas finalmente entendem isso, unem forças para fazer aquilo que sempre esteve no centro da franquia: cuidar de Bonnie da melhor maneira possível. É uma conclusão madura, sensível e que evita transformar a discussão em um simples embate entre o novo e o antigo.

Durante muitos anos, parte do público acreditou que Toy Story 3 havia entregado o encerramento perfeito para a franquia. E, de fato, a despedida de Andy continua sendo um dos momentos mais emocionantes da história da animação. Mas Toy Story 5 mostra por que essa jornada não precisava terminar ali. Ao encontrar novos temas, novos conflitos e novas formas de explorar a relação entre crianças e brinquedos, o filme prova que ainda existem histórias relevantes para serem contadas. Que bom que Toy Story 3 não foi o último capítulo, porque esses personagens ainda têm muito a dizer e, principalmente, muito a emocionar.

E falando em emoção, é impossível ignorar a contribuição de Taylor Swift para a trilha sonora. A cantora entrega uma canção que conversa diretamente com os temas centrais do filme, reforçando os sentimentos de nostalgia, amizade e mudança que acompanham a jornada de Jessie. Sua música surge nos momentos certos e amplifica ainda mais o impacto emocional da narrativa, tornando-se um dos grandes destaques da produção.

Somando a força da trilha sonora à impressionante qualidade técnica da animação, Toy Story 5 já desponta como um dos grandes candidatos da próxima temporada de premiações. A Pixar alcança um novo patamar visual, especialmente nas sequências que representam a imaginação das crianças, enquanto a música de Taylor Swift tem todos os elementos para disputar os principais prêmios da categoria. Se depender da qualidade apresentada na tela, tanto a animação quanto a canção original possuem credenciais de sobra para figurarem entre os fortes candidatos ao Oscar de 2027.

Andrew Stanton merece reconhecimento especial por conduzir essa nova fase da série com sensibilidade e inteligência. Em vez de repetir fórmulas, ele encontra novas formas de discutir amizade, pertencimento, crescimento e mudança sem perder a essência que transformou Toy Story em um fenômeno cultural.

Trinta anos depois, Toy Story 5 prova que ainda existe espaço para novas histórias nesse universo. É uma continuação que respeita o passado, entende o presente e olha para o futuro sem medo. Uma aventura emocionante, divertida e surpreendentemente madura, que reforça por que essa continua sendo uma das franquias mais importantes da história da animação.

E fique até o final: a cena pós-créditos fecha uma ponta solta da narrativa e certamente deixará os fãs sorrindo ao sair do cinema.