PRAJURITTOTO – 15 anos depois do último filme, uma das franquias mais conhecidas pelos seus grandes efeitos visuais e músicas dignas de uma viagem com tudo pago ao auge das tecnologias dos anos 80 retorna com Tron: Ares, dirigido por Joachim Rønning e com a produção e atuação de Jared Leto. Seguindo suas raízes, o filme traz um futuro onde a inteligência artificial e o mundo real já não são duas coisas separadas. Então, coloque para tocar aquela playlist especial de Daft Punk, Depeche Mode, Nine Inch Nails e venha com a gente.
Diferente das duas obras anteriores, o foco do filme agora é questionar até que ponto uma IA é apenas um monte de código e o que acontece quando ela toma consciência de si. A empresa ENCOM, agora dirigida pelas irmãs Kim, tem como rival a Dillinger Systems, comandada por Julian Dillinger (Evan Peters). Enquanto Eve Kim (Greta Lee) tem uma explicação para a posse do cargo de CEO da empresa, a Dillinger Systems parece ter surgido do nada, sem muitas explicações sobre como alcançou o mesmo nível de tecnologia de sua rival.
Tron: Ares mistura o protagonismo dos softwares personificados com os chefes das grandes corporações. Dois filmes depois, já não temos tempo para certas introduções, então o filme faz um bom trabalho ao ir direto ao ponto sobre como as coisas funcionam no mundo de Tron, sem deixar novos telespectadores perdidos em meio à ação.
Esse ritmo contínuo e rápido prende a atenção do começo ao fim. No entanto, da mesma forma que o filme promete e cumpre sua proposta, poderia haver mais espaço para construir novas iniciativas no universo, a partir das inovações apresentadas no enredo, o que até ocorre, mas não tanto quanto poderia. Damos adeus aos personagens que já cumpriram seu propósito nas outras obras e podemos conhecer não só novas faces, mas também novos contextos da união da Grade, o universo digital de Tron, com o mundo real.
Elementos clássicos desse universo são preservados, como os programas de computadores e seus procedimentos representados pelos personagens que vemos na Grade, além de seus combates cheios de cor, luz neon e ação. Quebrando a barreira entre os mundos, temos uma ideia dos impactos daquilo que se passa dentro da Grade no nosso mundo. No filme, temos tudo com aquele estilo clássico que só Tron traz às telas.
O diálogo do filme é bom o bastante para evitar exageros que fujam da história e faz um bom trabalho em explicar tudo o que está acontecendo. A interação entre personagens ajuda a entender suas relações, mas peca em não apresentar profundidade suficiente. O mesmo ritmo acelerado que prende a atenção do espectador do começo ao fim faz com que algumas interações pareçam forçadas ou sem sentido. Alguns personagens se tornam obsoletos a ponto de você não sentir falta deles, com o foco total nos principais, que conduzem a trama de começo ao fim.
A atuação tem destaques, como na aparição da personagem Athena (Jodie Turner-Smith), que desempenha seu papel de antagonista perfeitamente até o fim. A aparição de Jeff Bridges como Kevin Flynn resgata uma sensação intensa de nostalgia, junto à contemplação da pergunta inicial do filme, sobre o que acontece quando uma IA ganha vida. É nesse momento que os fãs do primeiro filme terão seu momento de glória e lembrança. Jared Leto segue com sua essência que tanto abençoa quanto amaldiçoa o longa-metragem. Por um lado, temos sua presença de impacto encaixando bem em vários momentos. Mas, por outro, Leto desbalanceia sua representação de um programa de computador, e por vezes nos faz esquecer se aquilo seria um humano ou “máquina”.
A atuação de Evan Peters como CEO da corporação antagonista Dillinger Systems, é um destaque e também hilariamente acurada, semelhante a casos reais como o do CEO da empresa FTX (que jogava League of Legends em reuniões), entre outros. Seu comportamento teimoso e, por vezes, irracional ou tolo, passa uma imagem real, onde, muitas vezes, nesse mar de corporativismo e tecnologia, seus líderes simplesmente não sabem o que estão fazendo.
Outro bom destaque é a preocupação em dar uma boa representação das tecnologias atuais, como redes neurais, fabricação aditiva e programação de computadores. O filme faz isso sem cometer os pecados de filmes semelhantes, que tentaram, muitas vezes, representar tecnologias de época de forma caricata. Amantes da tecnologia ou aqueles que queiram vislumbrar obras com uma temática mais atual, ainda que fantasiosa, terão uma boa experiência com Tron: Ares.
O filme também traz toda a glória das motocicletas futuristas, armaduras banhadas a neon e grafite, assim como mundos virtuais cheios de glória e tecnologia. A sensação mais sci-fi cyberpunk está presente em boa parte do filme, e, em algumas cenas, você chega a se sentir imerso no desespero dos personagens, enquanto seres inorgânicos os perseguem pela cidade.
Dito isso, Tron: Ares é uma boa oportunidade de se desligar dos problemas de IA e corporativismo do mundo real, para focar na fantasia de como seria um mundo tecnológico, e meio gamificado, junto ao nosso. Ainda que sua proposta possa ter sido grandiosa, o filme cumpre bem o que promete e entrega grandes momentos. Com sua CGI deslumbrante, esta é a oportunidade perfeita para vivenciar tudo isso na grande tela, em grande estilo.